Pisa, que o buraco é mais embaixo

O fato do Brasil estar na "zona de rebaixamento", em termos educacionais, não surpreende. É a constatação do fundo do poço ao qual chegamos por várias causas.

Por João Renato Amorim 13/12/2019 - 15:19 hs
Pisa, que o buraco é mais embaixo
Brasil melhorou, mas empaca nas últimas posições na avaliação do PISA

Criado em 2000 pela Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE), espécie de “clube do Bolinha” apenas com países ricos ou quase, o PISA - Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Programme for International Student Assessment, em inglês) - tem como objetivo central avaliar os estudantes a partir dos 15 anos e matriculados na sétima série do Ensino Fundamental. A prova ocorre a cada três anos nos 36 países do órgão e em nações parceiras. Apesar de não ser membro do grupo, o Brasil colabora desde o primeiro ano.

Os alunos são testados em três disciplinas: leitura, matemática e ciências, com quantidade maior de questões para uma área específica. Foi o caso da leitura na última edição. Ao cabo, o programa é utilizado para avaliar as nações participantes e compará-las. Divulgados os resultados e com base em modelos de sucesso, eles adotam políticas com vistas a aperfeiçoar a educação local. Mais de 600 mil estudantes de 79 países e territórios participaram do último PISA, em 2018. Do total, 15 mil eram brasileiros.

Relatório final divulgado pela OCDE no dia 3/12, constatou que o Brasil avançou, entretanto, de forma discreta e estacionado nas posições retardatárias nas três matérias. Para piorar, nações menos desenvolvidas tiveram performance melhor. Ficamos em 57º lugar em leitura, 66º em ciências e 70º em matemática. Com esses números, os futuros integrantes do mercado de trabalho daqui desconhecem o básico em qualquer disciplina. Metade não tem o mínimo domínio em leitura, não distinguindo a opinião do fato e 68% dos alunos não conseguem resolver problemas de aritmética.

            A discrepância aumenta quando se equipara as instituições públicas das privadas. Segundo o Ministério da Educação, se o Brasil fosse representado no PISA apenas por escolas militares e institutos federais, estaríamos no mesmo patamar de países desenvolvidos e de acordo com matéria do jornal O Estado de S. Paulo, com as demais particulares inclusas, ficaríamos em quinto lugar em leitura ao lado da europeia Estônia.

É fato notório que a educação brasileira, no geral, vai de mal a pior. Os dados apresentados pela OCDE só corroboram o lastimável cenário no componente deveras essencial para a construção do futuro de um país. Pouco ou quase nada é feito para mudar, independente do governo de ocasião.  Guardadas as devidas proporções, na Copa do Mundo do desempenho educacional, não conseguimos sair da "zona de rebaixamento", sendo humilhados de forma contumaz com goleadas piores a qualquer sete a um.

            Nas unidades geridas pelo poder público, onde se concentra o maior percentual dos estudantes, o nível intelectual dos egressos só piora. Elas ainda estão longe de perder o rótulo de “esgoto de cérebros” a despejar todos os anos pessoas despreparadas para a sociedade. As escolas públicas transformam o gosto pelo conhecimento em algo enfadonho e amargo. Não espanta verificar, além dos resultados pífios em testes gerais, o aumento nos casos de evasão escolar, principalmente nos anos do Ensino Médio, período determinante para o futuro de qualquer aluno.

            Se elencássemos todos os motivos que levaram o Brasil a chegar ao estágio terminal da qualidade educacional, o tempo a ser gasto seria imensurável. A não-valorização da classe do magistério pode ser apontada como uma das principais, mas o problema é profundo e se arrasta há gerações. Talvez a raiz esteja no fato de, desde os tempos de antanho, haver um desprestígio à busca pelo conhecimento somado a falsa ostentação a títulos honoríficos. Exemplo disso pode ser encontrado na obra-prima do autor carioca Lima Barreto (1881-1921), “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de 1915 (aliás, boa sugestão de leitura para o fim de ano).

            Outra causa para estarmos no fundo do poço, e só agora suscitado em debates por especialistas, é o fracasso da adoção do método construtivista, principalmente na educação básica. Entre as vertentes mais conhecidas, está a do sócio construtivismo cuja síntese se encontra na “Pedagogia do oprimido”, livro escrito e publicado em 1969 pelo educador Paulo Freire (1921-1997). Aos leitores, indico um podcast do site Senso Incomum, do brilhante Flávio Morgenstern, que esmiúça o quão danoso foi o Brasil ter optado por esse caminho.

            Por mais tortuosos que sejam as veredas, no final do mais escuro túnel sempre existe uma fagulha de esperança. O trabalho será árduo, pois estamos em cenário de terra arrasada. Ao contrário de outros setores, os resultados de políticas educacionais são colhidos em questão de anos. É uma aposta de alto risco; é lançar sementes em solo desconhecido. Uma das alternativas viáveis, a curto prazo, é incutir nas pessoas as benesses de se educar as crianças a partir de casa, estimulando-os e cabendo a escola o papel de incentivar ainda mais a busca por conhecimento e, por consequência, da verdade.

              Àqueles já graduados, não importando a formação, é necessário o constante crescimento na vida intelectual. O cérebro é como um músculo e, sem os exercícios necessários, ele pode acarretar em problemas que afetem o bom funcionamento do nosso organismo. Pode parecer difícil, todavia é possível obter uma vida constante de estudos, em diversas áreas do conhecimento humano, ainda mais quando escolhemos as que mais nos aprazem e vão ao encontro de nossa personalidade.

            O Brasil entrou no século XXI, chamado por muitos como o “século do conhecimento”, no que se refere a qualidade da mão de obra, guiado em um carro a manivela, enquanto outros atravessaram em veículos supersônicos. É bola cantada dizer que só a educação pode mudar os destinos de uma sociedade. Exemplos não faltam de nações antes paupérrimas e hoje plenamente desenvolvidas, em todos os sentidos.

           Precisamos descobrir, no fundo do lodaçal a que ainda estamos um impulso para ter um respiro e, assim, chegar em lugares onde jamais imaginou estar. É preciso uma união de esforços entre governo e sociedade para virarmos a chave. Saída há, basta atitude e um componente fundamental para a aparição dos primeiros frutos: o tempo. Em educação, além de outros aspectos da vida, é URGENTE ter paciência!