O fato pela diatribe

A imprensa brasileira está com a credibilidade arruinada. Em vez de melhorar a situação, alguns “colegas” preferem fofocar a se ater só aos fatos.

Por João Renato Amorim 24/01/2020 - 23:30 hs


"A caneta de um mau jornalista pode fazer tanto mal quanto o bisturi de um mau médico."

(Dr. Enéas Carneiro, 1938-2007)


Os comunicólogos discutem, há muitos anos, se o jornalismo estaria com seus dias contados. Entenda-se por essa sentença o fato de o público, razão de ser de qualquer veículo, não usar os meios seculares de difusão (rádio, TV, jornais e revistas) como fonte de informação e dar preferência a notícia fácil, gratuita e concisa disponível no mundo digital cujo acesso, sobretudo no Brasil, cresceu de forma exponencial em uma década e meia.

O debate não deve se limitar apenas a este ponto. É necessário suscitar se, na realidade, o que estaria em estágio terminal é o jornalismo como conhecemos, sobretudo o oriundo da grande mídia. A circulação de jornais e revistas impressas cai de forma gradativa com o passar dos anos e as assinaturas digitais das mesmas empacam. Paradoxalmente, a procura das pessoas por meios de informação minimamente confiáveis, no ambiente digital, só cresce, mesmo com o risco constante e iminente de ser presa fácil de uma mentira travestida como verdade.

A grande mídia se vangloria em afirmar que tudo aquilo produzido por ela - e só por ela - tem o selo verificador da imparcialidade. Tamanha presunção faz dela a única autoridade capaz de julgar se cada notícia produzida merece ou não o rótulo de “fake news”. Para tanto, criam certas “agências de verificação” tão similares aos órgãos de censura oficial - ativas ou não - das mais sórdidas ditaduras. Sob esse mantra vago da imparcialidade, a grande mídia tem carta branca para desqualificar veículos independentes de todos os matizes e fazer, sem nenhum impedimento, aquilo que eles próprios dizem combater.

Todos os dias nos deparamos nas páginas dos jornais e revistas e nos grandes portais com matérias irrelevantes, cheias de linguagem rasa e pobre, permeados de deslizes gramaticais e de concordância. Não que eu seja o arauto da “última flor do Lácio” digno de ocupar assento na Academia Brasileira de Letras para estabelecer regras, longe disso. Para piorar, há o agravante da insistência em diatribes que, ao cabo, estariam melhor ditas na boca de qualquer vizinha fofoqueira, cuja única função é maldizer aos outros, usando de sua língua ferina como arma para destruir reputações alheias. A distância entre as fofoqueiras e os supostos “jornalistas” seja, talvez, o diploma de graduação.

O triste cenário tem raízes profundas, externadas em outro artigo anterior ("Pisa, que o buraco é mais embaixo"). As causas dessa deterioração da credibilidade estão ligadas, de certa forma, a problemas de ordem social ainda vigentes no país. Como consequência, a qualidade intelectual e moral de parcela considerável dos novos profissionais só piora. E não precisa de nenhum estudo científico ou notícia para comprovar. Falo por experiência de causa!

Nos anos em que estive no Ensino Superior, muitos foram os conhecidos, colegas ou não, que por influências mil, acreditaram encontrar no ofício o meio de transformar a realidade. Nunca aceitei tal pensamento. Lamento informar a eles, todavia, que a caneta não é uma arma com o poder de modificar o estado das coisas. Muito menos um bisturi cujo o mal-uso pode ser fatal a quem se aplica. Ao jornalista cabe, única e exclusivamente, ser apenas um relator dos fatos, tornando-se escravo deles. É ele que possui a nobre missão de, através do seu olhar, ser um eterno operário da História.


Entrevista de Moro é mais um caso do tamanho descrédito


O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, foi o convidado ao outrora renomado programa de entrevistas Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, na última segunda-feira (20/1). Os jornalistas escolhidos são o exemplo claro do desgaste da relação de confiança entre emissor e receptor. Todas as perguntas dirigidas ao ex-juiz da Operação Lava Jato foram vazias de conteúdo, muitas vezes abordando assuntos fora de contexto e outros até com provável resposta embutida no próprio questionamento, além de induções dirigidas a ele.

Com paciência e elegância, Moro respondeu, a sua maneira, aquelas, digamos, perguntas eivadas de "bobajarada", termo usado por ele no dia. No final acabou por granjear, ainda mais, a simpatia de seus partidários e aumentar, do mesmo modo, a ira dos opositores e a ratificar a entrega do troféu de estultice aos todos os entrevistadores. Aliás, o próprio ministro é alvo contumaz nos últimos dias dos fofoqueiros de crachá. Eles tentam, em vão, encontrar fogueira onde não há fogo na sua relação com o presidente Jair Bolsonaro. Essas “antas agonizantes” dizem, através de fontes “seguras” (como motoristas de aplicativo, por exemplo), que existe certo desgaste entre ele e seu chefe, o que causaria a sua demissão na pasta sabe-se lá por qual razão em questão de tempo.

Me compunge o peito ao chegar à conclusão de que os jornalistas estão cavando a própria cova. Me sinto envergonhado em dizer que sou um deles ao ler ou ouvir algum fato ou opinião expostos por certos profissionais. Ou tomamos vergonha na cara e usamos a verdade - e só a verdade - como norte para nosso trabalho e assim recuperarmos nossa credibilidade ou estaremos tocando violino e sorrindo como se nada acontecesse enquanto o navio está prestes a soçobrar.